
Em 1476, a Transilvânia impõe sistematicamente uma pena raramente registrada nos arquivos judiciais ocidentais. Embora a maioria dos códigos europeus a exclua já no século XVIII, alguns territórios se apegam a ela até as primeiras décadas do século XIX.
O Império Otomano, o principado da Valáquia e a Pérsia medieval se destacam pela frequência e persistência dessa prática. Os relatos diplomáticos e militares europeus do século XVI não escondem nem sua fascinação nem seu nojo por esse método de uma brutalidade extrema.
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O suplício do empalamento: origens, difusão e realidades históricas
Durante muito tempo restrito às margens da justiça, o suplício do empalamento na história encarna a violência judicial e política em estado bruto. Essa punição, que oscila entre tortura e castigo sexual, visa atingir os corpos tanto quanto as consciências. Sob o Antigo Regime, seja na Bastilha ou em Oléron, recorre-se ao empalamento para arrancar confissões ou manter uma ordem de ferro. O exército francês, até mesmo em suas companhias de disciplina, não rompeu totalmente com esse legado, como mostrou Gaston Dubois-Desaulle.
Em Paris, alguns locais guardam a marca dessa história: praça Beauvau, ministério do Interior, celas da Gestapo. Durante a Segunda Guerra Mundial, a violência do Estado ressurge, herdeira de uma tradição secular. Percebe-se então todas as ramificações entre tortura judicial, tortura política e controle das populações. Os mecanismos de dominação atravessam os séculos com uma constância temível.
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Hoje em dia, a referência à tortura moderna invade os debates: Guantánamo, Abu Ghraib. Os tratamentos degradantes de ontem, do pelourinho ao empalamento, encontram eco nas denúncias atuais. O suplício do empalamento na história lembra que a violência institucional se adapta, se transforma, mas continua a se apoiar na humilhação, no medo e na vontade de dar um exemplo.
Três dimensões estruturam essa prática e sua memória:
- Tortura judicial: obter a confissão pela dor.
- Tortura política: impor o medo para moldar comportamentos.
- Transmissão: através de arquivos, relatos e silêncios da história.
Por que esse castigo marcou tanto as mentes?
O suplício do empalamento ocupa um lugar especial na memória da tortura, tanto pela violência extrema sofrida pelas vítimas quanto pela carga simbólica que o acompanha. Essa imagem de sofrimento, longamente analisada por Michel Foucault em Vigiar e Punir, permeia a literatura, o teatro, as artes visuais e suscita uma fascinação perturbadora. Figuras como Antonin Artaud ou Georges Ribemont-Dessaignes interrogam a relação complexa entre erotismo, castigo sexual e poder, enquanto Jan Fabre ou Stanisław Ignacy Witkiewicz transposicionam esses temas no palco.
Essa persistência no imaginário se explica por vários fatores:
- A encenação do sofrimento, estudada pelo teatro da crueldade e pela literatura da tortura;
- A força da imagem, que eleva o empalamento a símbolo de dominação total, transformando o corpo em objeto de terror ou desejo;
- A difusão de relatos, testemunhos e arquivos que mantêm viva a memória de uma violência institucionalizada.
No século XX, artistas e pensadores como Rodin, Aimé Césaire, Véronique Corinus ou Martin Barnier se apropriam desses legados na arte, no cinema ou na poesia. O estudo do sadomasoquismo, conduzido especialmente por Anita Staroń em Rachilde e Mirbeau, revela a fronteira porosa entre sofrimento e desejo, entre monstruosidade e fascínio. O suplício do empalamento, longe de ser restrito à barbárie, alimenta uma reflexão sobre os limites do corpo, a sexualidade e as relações de poder.

Entre mito e verdade: o que a história realmente retém do suplício do empalamento
O suplício do empalamento, amplamente descrito nas crônicas e na literatura antiga, permanece um castigo sobre o qual paira um halo de fantasmas. A linha de demarcação entre mito e realidade histórica é frequentemente nebulosa. As fontes, sejam incompletas ou tendenciosas, misturam descrições teatralizadas e relatos de testemunhas, às vezes instrumentalizados pelo poder ou pela ideologia dominante. Na falta de provas materiais sólidas, é preciso voltar-se para a memória dos supliciados: grafites em paredes de celas, arquivos judiciais, fotografias de testemunhos, como as reunidas em Os Grafites dos Torturados.
Os discursos sobre a tortura e sobre o suplício do empalamento navegam entre a denúncia engajada e a fascinação pela violência. Trabalhos dirigidos por Sarah Al-Matary ou Jérémie Majorel analisam a maneira como a verdade é construída através dos suportes da memória. Gaston Dubois-Desaulle mostrou quão longe vai a denúncia dessas práticas, que ultrapassa o simples relato do suplício: trata-se de interrogar a legitimidade da punição, sua carga simbólica, sua capacidade de provocar o pavor ou a revolta.
A rememoração da tortura se articula em vários níveis. Testemunhos, arquivos, fotografias, literatura: cada vetor traz uma iluminação sobre o discurso do sofrimento, o papel do algoz, a presença do público e o lugar do olhar. Associações como a ACAT continuam esse trabalho de memória, militando pela abolição da tortura: o passado se torna então um recurso vivo, que alimenta a vigilância e a consciência coletiva. No final das contas, a questão permanece: o que realmente transmitimos dessa violência herdada, e o que ela nos diz sobre nossas sociedades atuais?